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Quatro Contos Populares

Continuo lendo a Coletânea de Foclore capixaba escrita por Guilherme Santos Neves e encontro algumas narrativas de cunho fantástico que achei particularmente interessantes, dignas de aparecer em qualquer antologia como aquela à qual me referi há alguns dias feita pelo Borges. Seguem, portanto, essas quatro narrativas:

1

Havia (ainda há? Não sei, eu, morando em Vitória há 6 anos, nunca escutei) na época de Guilherme Santos Neves a expressão “ficar feito mãe de São Pedro” que, segundo o folclorista,  ”Diz-se de quem não tem onde ficar ou é posto entre duas coisas que ambicione, ou dois lugares, ou dois desejos, sem atingir a um nem a outro” Essa expressão tem como fundo uma narrativa muito curiosa, que passo a transcrever com pequenas modificações no original capixaba, retirado do ensaio de G. S. Neves:

A mãe de São Pedro foi uma criatura que nunca fez benefícios para ganhar a salvação. Por isso, quando morreu foi para o inferno, ficando São Pedro no céu muito triste. Vendo a tristeza de São Pedro, Deus perguntou: “Por que anda triste?” Aí São Pedro disse: “Porque minha mãe está no inferno.” Então Deus disse que ela tinha ido para o inferno porque no mundo nunca tinha feito benefícios para ganhar a salvação eterna. E continuou: “Em todos casos, Pedro, vai onde vocês moravam procurar se acha alguma boa ação que ela praticasse. Se achar eu lhe darei a salvação.”

São Pedro foi. O primeiro informante que procurou respondeu: que o capeta a carregasse ou a conservasse no inferno! E assim todos falavam pela mesma forma.

São Pedro ficou muito triste, e já voltava pro céu desanimado quando, passando por um rio, perguntou: “Rio, minha mãe te fez algum benefício?” O rio respondeu: “Um dia, ela lavando umas folhas de couve, eu arrebatei uma das folhas, que ela fez muito empenho em recolher; mas eu não deixei. E cuja folha está aqui.” E entregou a São Pedro que, chegando no céu, disse a Nosso Senhor: “Só alcancei foi esta folha de couve que minha mãe quis salvar do rio, mas o rio lhe tomou à força…” Deus então disse: “Vai com essa folha de couve no inferno onde sua mãe estiver. Faça que ela pegue na folha, e suspenda, que ela sairá.”

São Pedro assim fez. A mãe pegou na folhinha e São Pedro foi puxando, puxando, e ela subindo, subindo. Mas outras almas que estavam também no inferno se pegaram com a mãe de São Pedro, que começou então a dar coices para derrubar as almas, dizendo que seu filho nao tinha ido buscar elas e sim só ela. Com o esforço que fez, a folha de couve rasgou e a mãe de São Pedro ficou no espaço. Nao tinha por onde subir ao céu e o pedacinho de folha que conservava nas mãos não a deixava voltar ao inferno. E assim vive até hoje: nem na terra nem no céu.

Voltando São Pedro com o pedaço da folha na mão, Nosso Senhor falou: “Aquelas almas que se abraçaram com sua mãe eram para servir de benefícios, que ela não fez na vida, mas faria depois da morte.”

Nota:  Enquanto eu lia este conto, me lembrei de uma passagam do Inferno da Divina Comédia que fala sobre as pessoas que nunca fizeram nem algum bem nem algum mal durante a vida, que Dante encontra logo ao atravessar a porta do inferno (tradução Italo Eugenio Mauro, Editora 34, 1998):

“Gritos, suspiros, prantos lá encontrei

que ecoavam no espaço sem estrelas

pelo que no começo até chorei

-

Diversas línguas, hórridas querelas,

brados de mágoa, irrupções de ira

com estalar de mãos em suas seqüelas,

-

formavam um tumulto que regira,

no intemporal negrume, sem parada,

qual turbilhão que areia em torno atira.

-

E eu, co’a cabeça já de horror tomada:

“Que gente é essa”, indaguei, “nesse clamor,

que parece em sua dor tão derrotada?”

-

E ele: “As almas que vês nesse amargor,

são dos que têm no mundo – e ora deploram -

vivido sem infâmia e sem valor.

-

Co’aqueles anjos vis agora moram

que a Deus não opuseram rebeldia

nem lhe foram fiéis, mas por si foram.

-

O céu excluiu-0s porque o aviltaria,

e o fundo do inferno também os proscreve,

que tê-los certa glária aos réua traria”.

-

E eu: “Mas que pena têm, que tanto deve

pesar-lhes que clamar os faz tão forte?”.

Respondeu ele: “Escuta, serei breve:

-

Eles não têm esperança de morte,

e essa cega sua vida é-lhes tão crassa

que inveja têm de qualquer outra sorte.

-

Lembrança deles o mundo rechaça;

misericórdia, e justiça, os ignora.

Deles não cuides mais, mas olha e passa”.

2

Cego e Seus Três Filhos

Era uma vez um homem que tinha três filhos. Um dia ele foi pra roça e quando ia passando perto de um pé de pico, caiu o leite do pico nos dois olhos dele e ficou cego. Então ele mandou o filho mais velho ir buscar a água de japu que curava a cegueira. O filho foi, mas quando ia passando por uma casa, tinha festa e ele ficou. O pai esperou, mas ele não vinha, e então mandou o filho do meio. Ele foi e, vendo o irmão na festa, entrou na casa e ficou também. Agora só tinha o filho mais novo. O pai não sabia o que fazer e falava: “Meu Deus, só me resta meu filhinho Joãozinho, mas ele é ainda tão novinho e não sabe nada…” O filho escutou o que o pai estava falando e disse: “Meu pai, eu vou e trago a água, eu sei.” E então o pai mandou. Quando ele ia passando pela casa, ele viu os irmãos e chamou eles e começou a brigar: “Vocês, em vez de panhar água pra papai, ficaram aqui dançando. Eu vou contar a ele.” Os dois irmãos ficaram olhando pra ver onde é que tinha água. Quando João chegou, os dois pegaram ele e mataram numa pedra oqueira; depois enterraram na lama e foram levar a água de japu pro pai, que perguntou pelo filho menor e os dois disseram que não viram ele não. Então o pai ficou bom da vista e foi procurar Joãozinho. Andou, andou, e quando ia passando por uma pedra escutou uma voz cantar:

Me mataram na pedra oqueira,

Me enterraram na lama lameira,

Água de japu para papai.

Água de japu para papai…

Ouvindo isto ele reconheceu a voz do filhinho e logo depressa desenterrou ele e levou o corpo pra casa. Chegando lá perguntou aos dois por que eles tinham matado o irmão, mas eles não disseram e então o pai matou os dois filhos, e enterrou no mesmo lugar onde tinha estado João. Depois, fez um enterro bem bonito pro caçulinho e ficou sempre triste porque não tinha mais filho nenhum.

3

Maraçapeba

Essaé uma típica “história do porque” ao estilo das Just So Stories de Rudyard Kipling, que geralmente explicam como um animal adquiriu sua forma e características atuais:

maraçapeba deste conto é o peixe conhecido como linguado e que tem a configuração de uma folha de árvore, semelhante à pariparoba ou malvaísco, e a boca torta. O conto encerra a explicação de ambas as particularidades e é assim concebido: Quando Cristo andou pelo mundo, certa vez, no mar, em companhia de São Pedro, desejou saber que horas seriam, porque a maré parecia não encher nem vazar. São Pedro, vendo-o assim preocupado, lhe disse: “Senhor, qualquer peixe lhe dirá que horas serão, porque todos eles têm as horas de suas refeições marcadas.” Jesus, ouvindo-o, passeou os olhos pelo mar e, vendo um linguado ou maraçapeba à superfície, indagou: “Maraçapeba, a maré enche ou vaza?” O peixe, por inexplicável desdém, procurou imitar a voz do Salvador e, fazendo um trejeito como quem torce o queixo para um lado, reproduziu a pergunta sem lhe dar a resposta. Então Jesus assim falou: “De hoje em diante, como pena à zombaria e afronta que fizeste ao teu criador, te arrastarás na lama como uma folha que o vento atira ao lodo, para granjear o teu sustento, e a tua boca será torta, a fim de que todos os teus irmãos te evitem e contigo jamais se confundam.”

4

O Mundo vai se Acabar

Essa versão também não é a capixaba, mas uma mistura que eu fiz entre a capixaba e a baiana:

Era uma vez uma galinha que estava mariscando debaixo duma pimenteira. Nisso, cai-lhe sobre o cocuruto uma pimentinha madura. Ela, assustada com o ardor na crista, saiu em louca disparada, esvoaçando as asas. Mais adiante, encontrou o galo e disse, cacarejando: “Corre, corre, dom Galo, que o mundo está para se acabar!” “Quem lhe disse amiga galinha?” “Quem disse à dona Galinha foi o cocuruque dela que tanto adivinha!” Lá saíram os dois nas carreiras. Adiante encontraram o peru, a quem disse o galo: “Corra, amigo peru, que o mundo está para se acabar.” Prossegue a história no mesmo corre-corre e no mesmo diálogo, em que entram, além dos dois referidos, mais o pato, o ganso, o conquém etc. Continuaram a correr, a correr, até que chegaram à casa da raposa. Então disse a raposa: “Entrem aqui em minha casa e se escondam.” Entraram todos e a raposa ficou na porta. Depois de passado algum tempo, disse a raposa: “Já podem sair, mas venham de um em um.” Os pobres dos bichos foram saindo e raposa passando-os no papo. Não ficou um só para remédio…

Por Que Somos Capixabas?

Eu estava conversando com um amigo meu sobre o seu time de futebol americano, esporte que tem sido praticado com mais ou menos intensidade pelas praias de Vitória e Vila Velha; pedia ele algumas sugestões de nome para o seu time, pois buscava algo que tivesse a ver com o Espírito Santo, um símbolo típico; parei por alguns instantes e fiquei a pensar… pensar… só me ocorriam as imagens do Convento da Penha, beija-flores, moquecas, panelas de barro, iemanjá, congo, nenhuma lenda, nenhum personagem mais destacado, foi quando eu me dei conta do quanto eu desconhecia a cultura e o folclore locais, e o quando a idéia de identidade no Espírito Santo era algo frágil e fugidia, que estava se esgarçando e se perdendo, invisível, como uma estátua de vidro ondulando entre os peixes,  carregada pelas vagas do mar.

É bem verdade que sou um capixaba (palavra que designa aquele nascido em Vitória e/ou no Espírito Santo) expatriado, pois logo quando nasci, ainda com poucos meses, meus pais me levaram embora para a cidade de Marabá, localizada no sudeste do estado do Pará. Conheço razoavelmente bem as lendas e costumes de lá (que também é uma ilha), ainda que minha criação tenha sido estritamente urbana e meu contato com o folclore um tanto quanto livresco. Fato é que, quando retornei para Vitória, aos 16 anos, tive apenas que me desvencilhar de meu uso do “tu” não conjugado (o característico “tu vai…”) para passar por um típico capixaba destes que andam por aí, pois a “cor local” é um tanto quanto esmaecida e pouco profunda, creio que estamos cada vez mais nos tornando um agregado de pessoas que se identificam pelo futuro em lugar do passado, explico: em Marabá ainda existe aquele velho costume de identificar uma pessoa por seu sobrenome, uma palavra mágica como a de Ali Babá que em poucos segundos lhe abre e fecha portas com o mero ato de ser proferida, os sobrenomes formam um verdadeiro mapa social no qual as pessoas confiam para se localizar. Entretanto, em Vitória creio perceber que as pessoas se identificam muito mais diretamente por suas funções (ou, mais estritamente, profissões) e por suas aspirações e gostos (nota: Marabá aos poucos já perdeu muito de seu caráter tradicional, assim como Vitória em larga medida o mantêm conhecemos bem as famílias detentoras de jornais e influentes politicamente, etc., mas estou arriscando movimentos gerais). A tradição da cidade é um gosto importado, os símbolos e referenciais são cada vez mais externos, e isso foi o que fez com que fosse tão fácil me adaptar, um adolescente daqui quanto um de Marabá vão a boates, assistem aos mesmos noticiários, programas de TV, filmes, tem um gosto musical parecido ditado pela MTV (na época que eu vim para cá era, creio: Green Day, Linking Park, Gorillaz, Red Hot Chilli Pepers, U2, etc.) Nesse ambiente, o dinheiro e o espaço ditam as identidades.

Entretanto, algo que denunciava a minha ignorância local era quando me perguntavam sobre o significado de capixaba ou o porquê de os nascidos aqui receberem essa denominação. Logo procurei me informar por um jornal de que a dita palavra era o nome em tupi para roça ou quinta e, quando os portugueses instalaram na Vila Nova (atual Vitória) as primeiras lavouras de milho e feijão, estas foram assim denominadas pelos nativos. Entretanto, eu sempre me sentia meio inseguro de reproduzir esta versão, nunca confiei muito nestes “o que é?” que grassam nos suplementos de final de semana do jornal, e o fato é que ninguém sabia me dizer ao certo e eu acabava por escutar uma ou outra história diferente, algumas até incompatíveis; nunca me importei muito, porém, com isso, meus pensamentos sempre estiveram mais ocupados com vestibular, e faculdade e etc. (se alguém duvida da necessidade de se conhecer certas raízes culturais em determinadas sociedades tradicionalistas, sugiro a leitura do conto: Em Terra de Cego, de H G Wells) Enfim, por um acaso feliz descobri uma enorme e bem escrita coletânea de estudos e registros do folclore capixaba escritos por Guilherme Santos Neves (“Mestre Guilherme” como alguns o chamam) ao longo de quase 40 anos e organizada por seu filho Reinaldo Santos Neves para uma publicação em dois volumes, e o melhor: a dita coletânea está disponibilizada gratuitamente em um excelente site da internet, o Estação Capixaba, com um rico acervo de fotos e outros textos, inclusive uma concisa história da literatura capixaba.

Enfim, é sobre este livro que agora me debruço, e nem preciso dizer que a primeira coisa que procurei em suas páginas foi uma explicação mais erudita e embasada para as raízes etimológicas desse curioso e sonoro (e um tanto quanto feio e desengonçado) vocábulo: capixaba. Antes, cabe ressaltar, que eu já havia me desiludido, em meus estudos universitários, quanto a qualquer rígida precisão dessa etimologia e, nesse ponto, lembro e cito uma passagem de um texto de Câmara Cascudo (talvez o mais erudito dos folcloristas brasileiros) chamado Etimologias Populares:

“Pelo mesmo critério o povo inventa etimologias surpreendentes para topônimos. O nome de Olinda seria por ter Duarte coelho dito, vendo o local : Oh! Linda posição para uma cidade! No Rio Grande do Norte essas etimologias fantásticas abundam floridamente. A praia da Redinha veio da rede de dormir, indispensável no local; a cidade de Augusto Severo , outrora Campo Grande, nasceu da frase: “Que campo grande bom para criar gado!” Portalegre é : “Parece uma porta alegre do sertão!”. Todo esse palavreado é apenas invenção popular para suprir a razão verídica do topônimo. Redinha, Campo Grande, Portalegre, Olinda, são denominações portuguesas. Vieram de lá, exportadas, como queijo do reino, farinha do reino, pimenta do reino. Por todo Brasil essas etimologias populares vivem. O Sr. Feliciano Galdino, no seu Lendas Matogrossenses, (Cuiabá, 1919) registra uma explicação curiosa do topônimo Cuiabá. Quando Pascoal Moreira Cabral chegou à Forquilha com sua bandeira, aventureiros, mortos de sede, desceram para o rio. Um português querendo apanhar água com cuia deixou-a cair e o rio carregou-a. O homem, trocando o V pelo B exclamou, zangado: – Cuia, ba! Querendo dizer; cuia, vá. E ficou Cuiabá… Teodoro Sampaio, O Tupi na Geografia Nacional, ensina que Cuiabá provem da cui, farinha, e aba, homem, raça, povo, Cuiabá é o Povo da farinha, fabricante de farinha. É a explicação também de Lacerda e Almeida. Para o povo nem se discute. É apenas – Cuia…Bá!”

Mas voltemos ao capixaba: Guilherme Santos Neves escreveu um ensaio chamado, justamente “Por que somos capixabas?” e lá eu encontrei diversos dados interessantes. Ao lado daquela explicação a que eu acima referi, há uma outra defendida por várias pessoas de que o nome dos habitantes desta terra deriva de uma nascente da qual os portugueses que aqui chagaram se abasteciam com água e que se chamava “capixaba”; existem algumas variantes dessa versão e, uma das mais interessantes segue aquela  antiga tradição das histórias que remontam até a mais arcaica das Grécias, na qual se dizia que uma criança banhada no  rio Estige, como ocorreu com Aquiles, se tornaria invulnerável. Aqui, por estas bandas, o rio não era tão poderoso, segundo a lenda, narrada por Menezes de Oliveira (apud G. S. Neves):

“O povo, que adora os mitos e gosta de embelezar com o colorido da fantasia e as cores do sobrenatural suas ingênuas histórias, acabou emprestando virtudes miraculosas às águas daquela fonte. Dizia que a criancinha que tomasse o primeiro banho com as águas da fonte da Capixaba seria rica e feliz. Tanto bastou para que tal prática logo entrasse nos hábitos dos seus moradores. É assim que, assistindo ao banho do recém-nascido, indagavam as comadres, apontando para a água da bacia – é capixaba? No caso afirmativo estariam asseguradas ao bebê, pela existência em fora, felicidade e fortuna. Opulento e venturoso também seria todo aquele que, mesmo tendo nascido longe da fonte da Capixaba, pudesse misturar às águas do primeiro banho um pouco do precioso líquido, que dali lhe houvesse sido enviado por algum parente ou amigo dedicado. Destarte, com o decorrer do tempo, o nome da fonte veio a determinar, por distensão, os que tivessem nascido perto ou distante da Capixaba”

Dizem também que quem bebe da dita água não consegue mais sair daqui, outros que ela cura os rins. Mas, a Pedra da Vigia, de onde brota a nascente, é cercada por outras muitas lendas, segundo Dona Adalgisa, “em certas ocasiões, da Pedra da Vigia se precipitava, na direção do Penedo (ou do Mestre Álvaro) uma fulgurante bola de fogo.” “Também nos contou Dona Adalgisa outro fato curioso: certa feita, impressionara a todos os moradores do morro o caso dos gravatás que se desprenderam misteriosamente da pedra e, com rumores de trovões, rolaram escarpa abaixo.”

O artigo termina de modo inconclusivo, mas, mais interessante que a verdade, acho eu, são as versões que o povo vai inventando, o artigo esmiúça um pouco mais o tema e, quem tiver curiosidade, pode lê-lo na íntegra (não é grande, umas 7 páginas) e escolher a que mais lhe agrade.

Pessoa Policial

Fernando Pessoa

Esses dias, por um feliz acaso, descobri que o meu poeta preferido, Fernando Pessoa, havia criado um detetive, o Dr. Quaresma, e intentou escrever contos de cunho policial, tipo de narrativa que ele designava com o nome de “policiárias”.  O seu investigador é moldado bem ao estilo do qual eu gosto, pois, ele não elucida crimes com base em passagens secretas ou chaves que não estavam lá até serem reveladas ao leitor no final da história, como um deus ex machina, mas apela para induções de caráter psicológico, e raciocínios que costumam relacionar fatos dos quais já estamos de sua posse. Infelizmente, os contos não foram terminados e muitas vezes o que sobrou é nada mais do que uma barafunda de fragmentos desconexos. Dos casos que encontrei, este que vos apresento é razoavelmente bem contado em cinco fragmentos e de longe é o mais completo, falta-lhe uma introdução, que eu adaptei do livro “Os Cem Melhores Contos de Crime e Mistério”. Ao final resolvi colocar um fragmento no qual o Fernando Pessoa discurso sobre a personalidade do criminoso, é, para dizer o mínimo, muito interessante.

O Caso da Quinta das Vinhas

A ação se passa em uma noite de setembro de 1905, na Quinta das Vinhas, com a presença do proprietário, José Mendes Borba, e do seu filho, José Alves Borba, bem como da sua irmã Adelaide, de um primo, Manuel Barata, aspirante a oficial, e de uma amiga de Maria Adelaide, Maria Elisa. Também está com eles o engenheiro Augusto Claro (que é ele quem narra o caso), a convite de José Mendes Borba, o dono da Quinta.

Lá pela meia-noite, após uma explosão, foi encontrado arrombado o cofre da casa, de onde haviam desaparecido cem títulos da Dívida Externa Portuguesa que, aliás, dois dias depois já haviam sido postos em circulação.

Depois das investigações que estiveram a cargo do agente Lima, este desconfiou do filho do dono da casa, pois este estava com dificuldades financeiras além de possuir maus precedentes, além do fato de ser amigo de Manuel, passador de moeda falsa. Sabia-se que, à hora do crime, todas as pessoas citadas estavam na casa, já recolhidas aos seus quartos, com a exceção do proprietário e do engenheiro Augusto Claro. O agente Lima estranhava que o engenheiro tivesse justamente subido ao primeiro andar (onde se localizava o cofre) pouco antes da explosão. Convencido de que tudo fora obra de uma quadrilha de inteligências, não só pelo filho do dono da casa, mas também por mais alguém, o agente prendeu o jardineiro José Algarvio.

É então que o engenheiro pede ao Dr. Quaresma que procure resolver o enigma, tanto mais que está convicto da inocência do jardineiro. É por aqui que principia, no texto de Pessoa, a narrativa do engenheiro Augusto Claro.

[1]

Apesar de me maçar por antecipação, a ideia de ir contar ao Dr. Quaresma toda a história do roubo, não podia decentemente furtar-me a fazê-lo. Por isso, resignando-me com placidez, lhe expus, resumindo o mais possível, todos os factos que vão expostos no decurso desta narrativa. Fiz, como é de supor, algumas supressões: não falei nas dívidas do José Alves, nem no caso dos quinhentos escudos, e muito menos da parte do discurso do Lima de que estas coisas tinham sido o assunto e a base. Não pude, porém, esquivar-me a falar da hipótese policial, de que havia uma quadrilha a trabalhar, e que a polícia suspeitava que o fizessem em ligação com alguém de dentro da Quinta das Vinhas. Se não explicasse isto, era incompreensível a prisão de José Algarvio; e, aliás, bastava que o Dr. Quaresma se interessasse activamente por ele para o descobrir na polícia.

O Dr. Quaresma ouviu-me com grande atenção mas, se assim posso dizer, com uma atenção dividida. Parecia, ao mesmo tempo que me ouvia com os olhos, estar escutando uma voz que não era a minha. Reconheço o absurdo deste modo de dizer, mas transcrevo a minha impressão sensorial. Na realidade, o Dr. Quaresma parecia, sem deixar de me ouvir atentamente, estar todavia a seguir o decurso interior de uma outra coisa — raciocíno ou conjectura ligada — que não deixava de ter relação com o que eu ia narrando.

Acabei, por fim, a minha narrativa, e supunha-me livre do fardo dela. Mas o Dr. Quaresma, que não me interrompera enquanto eu contava, começou nesta altura a interrogar-me. Pediu-me uma descrição minuciosa das pessoas que estavam na casa por ocasião do roubo; a minha descrição directa havia sido sumária. Interrogou-me sobre idades, profissões, estados financeiros, e tudo mais. Comecei a sentir-me menos à vontade, sobretudo quando o José Alves era o assunto do interrogatório. Eu não podia dizer toda a verdade sobre o José Alves, mas também, em simples justiça ao preso, não podia suprimir redondamente os factos. Além disso, não estava muito seguro que o Dr. Quaresma, falando depois à polícia, não iria descobrir os fundamentos da outra hipótese do agente Lima. Decidi narrar o caso de certas atrapalhações financeiras do José Alves, não explicando o jogo que ele motivara, nem fazendo referência ao furto anterior.

A certa altura, porém, comecei a atrapalhar-me, pois o médico entrou no assunto por desvios. Perguntou-me se as relações entre pai e filho tinham sido sempre boas, ao que eu respondi que me parecia que sim, mas o próprio verbo «parecer» me soou cauteloso de mais, e receei que levasse ao Dr. Quaresma mais informação do que eu queria dar. Com essas e outras perguntas me entreteve, sem me divertir, durante cerca de uma hora e meia, a contar do início da minha conversa.

[2]

— Só o posso fazer pondo a mão no verdadeiro criminoso.

— Então faça-o, Sr. Dr. Quaresma.

Quaresma desdobrou as mãos, estendeu a dextra e tocou-me no ombro. Por fim, levantou-se da cadeira, e dirigiu-se para um cabide onde tinha o chapéu.

— Não se importa que saíssemos? — perguntou. — Queria passear um pouco para acabar uns certos raciocínios.

— Não me importo nada. — E saímos.

Descemos a Rua dos Fanqueiros. Estava uma tarde linda de Outono. Seguimos lado a lado, silenciosos ambos, e, no fim da rua, seguindo o movimento do Dr. Quaresma, virámos à direita, para o Terreiro do Paço. O Dr. Quaresma avançou lentamente, cabisbaixo, as mãos sempre cruzadas atrás das costas, até à muralha da esquerda. Ali parou, e eu com ele, e contemplou vagamente o rio. Esteve assim um momento. Depois voltou-se para mim com uma expressão grave e directa nos olhos naturalmente um pouco febris.

— Eu salvo o José Algarvio — disse. — Mas, antes de o fazer, preciso estudar com muito cuidado como hei-de proceder no assunto. Calhou muito bem que fosse o Sr. Claro que me procurasse, porque é consigo que eu tenho estudar a sério a resolução do assunto. Diga-me uma coisa: ocorreu-lhe alguma vez que o José Alves pudesse ser suspeito?

— Se me ocorreu? Não. Como sabe o Sr. Dr. Quaresma que ele é, ou pode ser suspeito?

— Concluí das palavras que o Sr. Claro me não disse. — Fez uma pausa. — Teria pena que o senhor tivesse pensado que o José Alves pudesse ser suspeito. Ele é o seu amigo, não é verdade?

[3]

— Se eu salvar este José Algarvio, o José Alves será fatalmente preso.

— Talvez não — disse eu.

— É-o com certeza. Será preso e será condenado. Este José Algarvio salva-se com facilidade, nem era preciso o meu auxílio para nada. O José Alves é que se não salva. É pena. Quer dizer, não se salva, se o caso seguir o seu curso entregue só à polícia. Há só um processo de o salvar: é pôr a mão no criminoso. Ora a polícia não é capaz de o fazer, porque caiu, desde o princípio, num erro fundamental, naquele mesmo erro em que o criminoso quis que ele caísse.

— E o Sr. Dr. Quaresma sabe quem é criminoso?

— Sei. Quer que eu salve o José Alves?

— Quero — disse eu hesitantemente, sem perceber o que se seguiria.

[4]

O critério de investigação que adopto, porque o acho o mais racional de todos, é o dividir a investigação preliminar em três tempos. O primeiro tempo é determinar quais são os factos incontestáveis, absolutamente incontestáveis, eliminando todos os elementos que não o sejam, ou porque não há certeza directa deles, ou porque sejam conclusões — talvez lógicas, talvez inevitáveis — tiradas desses factos, mas, em todo o caso conclusões e não factos. Citarei um exemplo para esclarecer inteiramente o que desejo significar com estas observações. Suponha que está um dia de chuva e que estou em casa. Aparece-me um indivíduo com o fato a escorrer em água. É natural que eu pense: «Este homem andou à chuva e assim ficou molhado.» Mas pode bem ser que não andasse à chuva, que entornassem água sobre ele aqui dentro de casa. A maioria da gente consideraria um facto o ter andado esse homem à chuva. Afinal é uma conclusão — uma conclusão naturalíssima, mas uma conclusão, ou uma dedução. Se eu tivesse estado à janela, tivesse visto esse indivíduo vir pela rua fora sob uma chuva pesada, poderia ainda, é certo, esse molhar da chuva ser suplementado por outra circunstância qualquer, mas alguma coisa da chuva teria molhado o homem, e eu poderia, em todo o caso, afirmar que o homem tinha andado à chuva. E então isso seria um facto.

Ora, neste caso do roubo na Quinta das Vinhas, há alguns factos que parecem incontestáveis (digo «parecem», pois eles se baseiam em testemunhos que podem ser falsos, involuntária ou propositadamente). Esses factos são: que cerca da meia-noite do dia … de Setembro se deu uma explosão de dinamite na fechadura do cofre no escritório da Quinta das Vinhas; que esse escritório e a saleta anexa estavam fechados por dentro, aberta a janela da saleta, e dois cães mortos por envenenamento; que se verificou nessa altura não estarem no cofre dinamitado uns títulos (cem) da Dívida Externa Portuguesa, 1.ª série, que haviam estado nesse cofre; que se não encontrou sinal de ninguém suspeito na busca que se passou imediatamente nas proximidades da casa; que todos os títulos roubados, verificados os seus números por uma lista que existia em poder do proprietário dos títulos, foram passados para a circulação bancária da praça sem que qualquer deles fosse apanhado no processo de passagem. Factos, simplesmente factos, há só estes. Quanto mais se queira passar por facto é simplesmente dedução.

Estabelecidos os factos incontestáveis, chegamos ao segundo tempo da investigação. Este tempo consiste no seguinte: em descobrir qual é a hipótese que mais completamente liga e explica os factos incontestáveis. Mas, descoberta esta hipótese, há que investigar que outras hipóteses haverá que também, embora com menos probabilidade aparente, se ajustem ao conjunto dos mesmos factos. E essas hipóteses determinam-se por um processo simples: descoberta a hipótese mais provável, estabelece-se logo a hipótese contrária e verifica-se qual o grau de probabilidade que a essa hipótese contrária compete. Estabelecido isto, será possível partir para as outras hipóteses, isto é, aquelas que estejam intermédias entre a mais provável e a sua contrária, e ir verificando, a uma e uma, quais as probabilidades delas.

No caso de que se estamos tratando, a hipótese aparentemente mais provável é a que toda a gente aceitou desde logo, instintivamente, achando-a tão provável que a tomou, até, por facto e não por hipótese ou conclusão Essa hipótese é de que o roubo houvesse sido praticado por um indivíduo ou indivíduos, estranhos à Quinta das Vinhas, que houvessem envenenado os cães, entrando em casa escondidos, posto a dinamite, roubado os títulos e fugindo depois, suficientemente depressa para não serem vistos. Conhecida esta hipótese, estabeleceremos a hipótese contrária. A hipótese contrária é que o roubo não tenha sido praticado por indivíduos estranhos, que não tenha havido nenhuma das circunstâncias aparentes já indicadas. É isso que constitui, como é de ver, a hipótese contrária.

Ora que probabilidade se pode ligar a esta hipótese contrária? Como a hipótese mais provável, a mais imediata para todos, é que o roubo fosse feito por estranhos, e nas circunstâncias indicadas, a hipótese contrária será realmente provável apenas num caso: se houve a intenção de simular esse roubo por estranhos. Nesse caso, a hipótese contrária é provável; tão provável como a primitiva é natural.

Estamos, pois, perante duas hipóteses prováveis, e que entre si se opõem. Qual das duas é a mais provável? Temos que considerar isto à luz do exame das circunstâncias directas do roubo ou seja, considerando (1.°) o local do roubo, (2.°) a hora em que o roubo foi praticado, (3.°) a natureza do objecto roubado. São estes os três elementos materiais directos do sucesso.

O local do roubo pode ser considerado sob dois aspectos — o local em si mesmo, e a escolha deste local para roubo; ou seja, o ser o roubo praticado no escritório da Quinta das Vinhas, e o ser a Quinta das Vinhas o local escolhido para o roubo. Quanto a dar-se o roubo no escritório da Quinta, nada há de extraordinário pois ali é que está o cofre, e o roubo havia forçosamente de ser ali. Mas quanto a escolher a Quinta das Vinhas para casa a roubar, o caso é diferente. Que presunção havia de que o cofre da Quinta das Vinhas era mais proveitoso de roubar que qualquer outro cofre? Que presunção dessa ordem havia para estranhos? Quem tivesse a habilidade e os processos para roubar como se roubou neste caso, por que escolheria a Quinta das Vinhas quando, sem desperdício de habilidade, nem maior risco, obteria melhores vantagens atacando outro ponto? A probabilidade neste caso é, pois, em favor de uma pessoa não estranha à casa capaz de roubar esse cofre por não ter outro à mão — razão suficiente e clara — e sentindo-se na necessidade de simular o roubo dum estranho para desviar a atenção de alguém de dentro da casa, entre os quais ele estaria incluído.

Agora quanto à hora do roubo. Quanto à hora do roubo, é mais estranha se ele foi obra de estranhos do que se foi obra de alguém de dentro de casa. Entrado em casa, o gatuno estranho deixa passar o tempo necessário para ter a certeza, ou a probabilidade grande de estarem todos a dormir. Para quê operar logo, ainda que não se soubesse que tinha ficado alguém cá em baixo? Para estranhos é a hora mais espantosa que se pode imaginar. Mas para alguém de dentro da casa, que quisesse simular um roubo por estranhos, a hora é exactamente a que seria escolhida. Estava quase toda a gente deitada, mas ainda estava alguém a pé. Não havia tanta gente a pé que se corresse o risco de cruzar com alguém ao dispor as coisas para a simulação; mas havia até o número bastante de pessoas para marcar a hora — neste caso a pretensa hora — do roubo e para dar sinal de que o roubo estava cometido.

A natureza do objecto roubado… Se o roubo foi praticado por estranhos, ou iam roubar os títulos ou não iam roubar senão o que encontrassem. Contra a hipótese de que iam ao acaso, milita a própria natureza do roubo, e a maneira como depois foi passada a matéria roubada parece indicar preparação para dispor dela.

***

Em toda a investigação de um facto, cuja natureza se desconhece e se quer saber ou cujo autor se ignora e se quer descobrir, o que importa, acima e antes de tudo, é isolar nele qualquer elemento que, sendo absolutamente indubitável, seja, ao mesmo tempo, inesperado ou estranho. Este roubo contém dois elementos que são inesperados ou estranhos — as circunstâncias do roubo, e o facto de que se conseguiu passar os títulos sem encontrar obstáculos. Por um destes dois factos, portanto, convém que principiemos a investigação.

Mas, isolados que sejam os factos de que se não possa duvidar que se deram, e que são estranhos (presumindo, é claro, que haja mais do que um), escolheremos, para verdadeiro princípio da investigação, aquele desses factos que seja susceptível de menos interpretações, isto é, aquele que pareça mais misterioso. Ora a passagem dos títulos é susceptível de várias interpretações; pode haver um conluio com qualquer indivíduo num banco ou na bolsa; pode haver um erro qualquer na lista dos títulos; pode ter havido uma troca de títulos sem que se verificasse a troca, nem portanto se conferissem os números. Mas sobre as circunstâncias do próprio roubo não há várias hipóteses plausíveis. Há simples estranheza.

Sim. O roubo foi praticado, ao que se viu, por um processo ruidoso, e a hora não tão cedo que fosse dia, mas não tão tarde que houvesse a certeza de estarem todos deitados em casa, como efectivamente não estavam. Podendo o cofre ser aberto por vários processos que não envolviam ruído, foi escolhido um processo que precisamente o causava, e, ainda, um processo invulgar. Resultado: foi escolhido um processo invulgar porque era desnecessário e produzia alarme — exactamente as razões contrárias àquelas que levariam a escolher um processo invulgar. Que a intenção era roubar os títulos é evidente, primeiro porque o modo misterioso como se passaram os títulos deve, qualquer que fosse, ter sido objecto de preparação; segundo, porque, sendo o roubo praticado com gente dentro de casa, não haveria tempo para roubar mais que os títulos.

Ora estas circunstâncias levam-nos a uma conclusão: que o processo empregado para o roubo foi empregado precisamente para dar alarme. Ora não se dá alarme senão para um fim: para enganar sobre a hora do roubo. E, se considerarmos que o processo de roubo — uma deflagração por rastilho — é coisa que pode ser disposta por uma pessoa para produzir resultado quando essa pessoa não esteja presente, chegamos a outra e ulterior conclusão: que o roubo não foi praticado pela deflagração de dinamite. Se o não foi, é porque foi por chave falsa e se foi por chave falsa, quem roubou era uma pessoa da casa, que, pela deflagração, quis dar a ideia de que quem roubara era pessoa de fora. Mas, se essa pessoa queria dar a ideia de que o que roubava não era ele, haveria de completar o seu cenário com o cuidado de estar onde o vissem na ocasião da deflagração e assim assegurar a si mesmo um álibi suficiente. Na altura da deflagração estavam todos deitados menos duas pessoas — o pai Borba e V. Ex.ª. E, como era ele o proprietário dos títulos, a primeira suspeita é sobre V. Ex.ª que recai.

Para que a suspeita se confirme, ou se confirme mais, é preciso ver, primeiro, se, um pouco antes de se dar a deflagração, V. Ex.ª saiu de casa de jantar sob um pretexto qualquer e se demorou bastante para dispor o cenário. Ora V. Ex.ª saiu sob um pretexto directo — o ter deixado uma cigarreira no quarto do aspirante —, e demorou-se o bastante para dispor o cenário completo, aliás obra de minutos sobretudo para quem, tendo tudo estudado, procede rapidamente.

[5]

O Dr. Quaresma desligou as mãos detrás das costas, olhou sem expressão e rapidamente para mim, e, estendendo a mão direita de repente, tocou-me no ombro. Depois tomou à posição em que estava, as mãos outra vez atrás das costas, atadas, e os olhos perdidos sobre o Tejo. .

Como uma bola de sabão, estoirou-me a alma, sem ruído, dentro de mim. Fiquei suspenso de um vácuo interior, sem razão, sem fala, sem gesto. Se o Dr. Quaresma tivesse dito qualquer coisa, eu teria respondido qualquer coisa, teria tido a que adaptar a minha razão e a minha voz. Ao silêncio não pude responder nada. O seu gesto era guilhotinante. No longo espaço de curtos segundos tentei desesperadamente formar uma atitude, uma palavra, um gesto, qualquer coisa… Não pude… e então compreendi violentamente quanto pode em nós, se sabem excitá-la, a consciência da culpabilidade. Fosse eu inocente, e alguma coisa diria, alguma coisa sucederia. Com cada fracção de segundo do meu silêncio a minha culpabilidade enchia o espaço. Com cada fracção da minha consciência desse silêncio aumentava a minha incapacidade de falar, de agir, de me defender. A minha derrota era completa. No fim do que deviam ser poucos segundos reconheci-o inteiramente.

O Dr. Quaresma desviou o olhar do Tejo, mas não o passou por mim. Voltou-se de costas para o rio, disse-me, com um tom de quem antes nada dissera que pesasse: «E se nós nos fossemos embora?» E, avançando ele para o Arco da Rua Augusta, avancei, silencioso ao lado dele, soterrado em mim sob a acusação definitiva que não fora proferida.

A meio da Praça o Dr. Quaresma voltou para mim a face, mas não os olhos, e disse: «O que pensa fazer?»

Tive uma grande vontade de chorar, de lhe pedir perdão, a ele, a quem nada fizera. Durante um momento não pude falar. Depois encontrei a minha voz dizendo-lhe: «Não sei.» E acrescentei, passado um momento: «O doutor dirá o que quiser.»

O Dr. Quaresma olhou então em cheio para mim, e disse-me com grande simplicidade: «Eu não tenho nada a dizer. Como já compreendeu, decifrei — posso dizer-lhe que decifrei com muita facilidade — o seu caso. O resto é consigo».

O Homem e o Criminoso

O homem, como aliás todos os animais, tem uma vida psíquica ou mental composta de dois elementos opostos — aquele elemento, vulgarmente resumido na expressão «os sentidos», pela qual entra em contacto com o mundo chamado externo, dele toma conhecimento, e com ele se relaciona; e aquele outro elemento que vai desde a consciência de si à inteligência abstracta, pelo qual entra em contacto com o mundo a que podemos chamar interno — o mundo das suas imaginações, das suas ideias, do seu ser, como o pensa e o sente.

Ambos estes elementos são necessários à vida do homem, e ambos eles são necessários em igual porção, isto é, funcionando com igual intensidade, pois, se assim não for, produz-se um desequilíbrio. Para, porém, haver equilíbrio entre duas coisas, é preciso que entre elas haja uma relação. Para que dois corpos se equilibrem nos dois pratos da balança, é preciso que haja a balança. E isto quer dizer que, no fundo, na realidade, a vida psíquica do homem se compõe, não só dos dois elementos que primeiramente se notam, mas de três — esses e um terceiro a que chamaremos o sentido da relação.

Ora qualquer elemento constitutivo da pessoa humana, ou animal até, é susceptível de existir em graus vários, dos quais os graus médios, embora sejam infinitos, constituem a chamada «normalidade», e os graus acima e abaixo desse, a «anormalidade», a doença, a morbidez. Isto é verdade tanto no corpo como no espírito, com a diferença que no corpo, que é um composto complicadíssimo, temos variadíssimos elementos a considerar, ao passo que na mente, ou espírito, basta que consideremos, dada a simplicidade da sua constituição, os três elementos que a compõem e definem — o sentido objectivo, o sentido subjectivo e o sentido relacional.

Como, por natureza, o sentido objectivo e o subjectivo são opostos, segue que uma exaltação mórbida de um se manifesta, inversa e paralelamente, por uma depressão mórbida no outro, ou vice-versa. O fenómeno é um só — opera em sentidos opostos, nos termos opostos da composição psíquica. O sentido relacional, porém, visto que existe, também é susceptível de doença ou anormalidade; como existe para relacionar os outros dois, o resultado da sua doença será uma perturbação das relações entre o sentido objectivo e o subjectivo, sem que necessariamente haja exaltação de um ou de outro, e correspondente depressão ou exaltação em contrário, a não ser que esse desequilíbrio exista independentemente da doença do sentido de relação.

Temos, assim, quatro tipos mórbidos do homem. O primeiro, em que se exalta o sentido objectivo e o subjectivo correspondente se deprime; o segundo, em que se exalta o sentido subjectivo e o objectivo correspondentemente se deprime; o terceiro, em que o sentido de relação se exalta; o quarto em que o sentido de relação se deprime.

O primeiro, que é normal nos animais, em quem o sentido objectivo supera em muito o subjectivo, é, quando se dá no homem, o idiota ou o imbecil. O segundo é o louco, que é essencialmente a criatura cuja vida subjectiva se exalta, a ponto de ele perder a noção objectiva das coisas. O terceiro é o homem de génio, que o génio a meu ver, e por este raciocínio, é a exaltação mórbida do sentido de relação, exaltação mórbida que tem o curioso efeito de produzir um excesso de equilíbrio, uma doença de lucidez só lucidez. O quarto, enfim, é o criminoso. O criminoso, direi então, é um idiota relacional.

O criminoso não é o louco, embora possa ser louco, pois, como disse, pode coexistir uma doença do sentido de relação com uma doença dos sentidos objectivo e subjectivo. O criminoso não é o idiota mental, embora, pelo mesmo motivo que no outro caso, possa ser idiota mental. O criminoso raríssimas vezes, se alguma, poderá ser um homem de génio, no verdadeiro sentido deste termo, pois, como expus, o crime se baseia precisamente no fenómeno mental contrário de aquilo em que se baseia o génio. O que pode haver é momentos, fenómenos ocasionais, de depressão do sentido de relação, como os pode haver no homem normal.

Creio, aliás, que o único caso onde se possa encontrar qualquer coisa parecida com a conjugação do génio autêntico e do crime, é em Benvenuto Cellini.

Ora todos estes fenómenos que descrevi podem ser orgânicos ou episódicos. Certas circunstâncias de educação, de meio, e outras mais ocasionais em muito menor grau, podem, até certo ponto, fazer do homem, que salvo elas seria normal, um imbecil. Certas circunstancias, já mais fáceis de produzir, podem fazer de um homem normal um louco. Outras circunstâncias, como certos estimulantes, certos momentos de exaltação espiritual, e outras assim, podem produzir num cérebro não genial faíscas do que, se fosse constante, seria génio. Tal homem, naturalmente normal, e portanto banal, mas inteligente, terá um momento em que escreve um soneto que fica, único dele, numa antologia. Tal outro — e isto é mais vulgar — terá um dito de espírito que mais vulgarmente atribuiríamos a um espírito realmente genial. O dito de espírito é, até, um dos exemplos curiosos do raro fenómeno do génio ocasional — e é de notar quantas vezes nasce do estímulo da sociedade, do vinho, e de outros assim.

Do mesmo modo, como todos sabemos, há circunstâncias ocasionais que podem fazer do homem, que diríamos normal e que de facto o é, um criminoso. Tal homem, normalmente moral mas fraco, praticará um desfalque sobre a pressão de circunstâncias desvairantes e da oportunidade traiçoeira. Tal outro, não menos normal, matará a mulher num acesso de raiva contra uma traição. Estes casos, não sendo inteiramente raros, são-no todavia mais do que julgamos. Em muitos casos de crime aparentemente ocasional, encontramos, se procurarmos bem, um fundo de anormalidade, talvez vago, talvez escasso, mas que certa circunstância ocasional violenta conseguiu erguer à superfície. O que distingue, contudo, e a todos será evidente, o criminoso-nato (chamemos-lhe assim) do criminoso ocasional, embora neste haja um vago fundo mórbido, é uma de três coisas: a desproporção entre o estímulo e a reacção criminosa; a reincidência constante no crime; e a premeditação.

O crime, porém ocasional ou não, é sempre crime. Como, porém, tanto o crime ocasional (precisamente por ser ocasional, mostra mais claramente e mais destacadamente, visto que se dá sobre um fundo não criminoso ou pouco criminoso, a mecânica do crime) como o homem normal, ou quase normal (em que se dá) nos mais compreensíveis que o anormal, a melhor maneira de estudarmos a mecânica do crime, e, derivadamente, a alma do criminoso, é fazermos uma análise de como surge, numa alma normal ou quase, o impulso realizado ou tentado para o crime.

A desproporção entre o estímulo e a reacção criminosa é característica do criminoso louco, isto é, ou do louco que se torna criminoso, ou do criminoso em que há um elemento concomitante de loucura. A constância na prática do crime é característica do criminoso idiota, ou do idiota malévolo, tipo diferente, ou do criminoso em que há um elemento concomitante de inferioridade mental. É no crime com premeditação que surge o exemplo perfeito, direi, até, o exemplo puro do criminoso. Como neste tipo de criminoso se não alia à sua idiotia relacional nenhum fenómeno rnórbido proveniente dos sentidos antagónicos, e seu desequilíbrio próprio, como deste tipo de criminoso deriva a doença que o faz criminoso, exclusivamente de uma perturbação do sentido de relação, não havemos de estranhar que haja crimes de relação em que há qualquer vaga coisa que parece génio. É que em toda a doença há qualquer coisa de esboçadamente pendular — no génio a frequente insociabilidade, que é a mesma coisa, salvo que em menor grau, que a base do crime; no criminoso premeditado a exaltação e clareza de organização que por vezes o converte num verdadeiro estratégico, se bem que num campo limitado. E, a propósito mas entre parênteses: mais tarde terei que tratar do estratégico mais detalhadamente.

Estive a ler diversos contos fantásticos nos últimos dias, inclusive a famosa “Antologia de la Literatura Fantástica” organizada por Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvana Ocampo. Infelizmente, esta antologia só está disponível em espanhol, e, portanto, tomei a liberdade de traduzir a primeira a terceira e a quarta narrativa que seguem abaixo; muitas das narrativas não constituem contos completos, mas trechos de romances, novelas ou palestras, é o caso do texto de Borges e do Terry Pratchett, que não fazem parte da antologia, mas que acrescentei por uma certa afinidade temática, aliás, o texto de Pratchett é retirado do começo da introdução do livro que inicia a sua série mais conhecida, Discworld, que é uma sátira aos livros de aventura fantástica:

De Malay Magic (1900), de W. W. Skeat.

A mitologia malaia fala de um lenço, sansistah kalah, que se tece sozinho e a cada ano agrega uma fileira de pérolas finas e, quando estiver concluso este pano, será o fim do mundo.

De Budismo – Sete Noites, de Jorge Luis Borges

Porque aos estóicos e aos pitagóricos chegara a notícia da doutrina hindu: que o universo consta de um número infinito de ciclos que são medidos por calpas. A calpa transcende a imaginação dos homens. Imaginemos um muro de ferro. Tem dezesseis milhas de altura e a cada seiscentos anos é roçado por um anjo. É roçado por um tecido finíssimo de Benares. Quando o tecido tiver gasto a muralha que tem dezesseis milhas de altura, terá passado o primeiro dia de uma das calpas. Os deuses também duram o que duram as calpas e depois morrem.

De Star Maker (1937), de Olaf Stapledon.

Em um cosmos inconcebivelmente complexo, cada vez que uma criatura se enfrentava com diversas alternativas, não elegia uma, mas todas, criando deste modo muitas histórias universais do cosmos. Já que nesse mundo havia muitas criaturas e cada uma delas estava continuamente ante muitas alternativas, as combinações desses processos eram inumeráveis e a cada instante esse universo se ramificava infinitamente em outros universos, e estes, por sua vez, em outros.

Os Olhos Culpados, de Ah’med Ech Chiruani

Contam que um homem comprou uma moça por quatro mil dinares. Um dia, ao olhar para ela, começou a chorar. A moça lhe indagou o porquê do choro; ele respondeu: “Tens olhos tão belos que me esqueço de adorar a Deus.”

Quando se encontrou só, a moça arrancou os próprios olhos. Ao encontrá-la nesse estado o homem se afligiu e perguntou: “Por que te mutilastes desse jeito? Diminuístes, assim, teu valor.” Ela respondeu: “Não quero que haja nada em mim que te distraia de adorar a Deus” Durante a noite, o homem escutou em seus sonhos uma voz que lhe dizia: “A moça diminuiu seu valor para ti, mas o aumentou para nós e, portanto, nós a tomamos de ti.” Ao despertar, encontrou quatro mil dinares debaixo da almofada. A moça estava morta.

A sentença, de Wu Cheng’em (Tradução de Flávio Moreira da Costa)

NAQUELA NOITE. NA HORA DO LOBO, o imperador sonhou que havia saído de seu palácio e que, na escuridão, caminhava pelo jardim, debaixo das árvores em flor. Alguma coisa enroscou-se em seus pés e lhe implorou ajuda. O imperador consentiu; o suplicante disse que era um dragão e que os astros lhe haviam revelado que no dia seguinte, antes do cair da noite, Wei Cheng, ministro do imperador. lhe cortaria a cabeça. No sonho, o imperador jurou protegê-lo.

Ao despertar, o imperador perguntou por Wei Cheng. Disseram-lhe que ele não estava no palácio; o imperador mandou buscá-lo e tratou de mantê-lo ocupado o dia inteiro, para que não matasse o dragão, e ao entardecer propôs que eles dois jogassem xadrez. A partida foi longa, o ministro estava cansado e acabou dormindo.

Um estrondo perturbou toda a terra.

Pouco depois chegaram dois oficiais que traziam uma imensa cabeça de dragão empapada de sangue. Jogaram-na aos pés do imperador e gritaram:

— Caiu do céu!

Wei Cheng, que acabara de despertar, olhou-a perplexo e comentou:

— Que estranho, eu sonhei que estava matando um dragão igualzinho a este.

De A Cor da Magia (1983), de Terry Pratchett

NUM DISTANTE CONJUNTO DE DIMENSÕES de segunda mão, num plano astral que não fora destinado a voar, a névoa estelar flutua e se dissipa…

Veja…

Grande A’Tuin, a Tartaruga, surge lentamente nadando pelo abismo interestelar, com gelo de hidrogênio nas patas pesadas e crateras meteoríticas na enorme e primitiva carapaça. Com olhos do tamanho de oceanos cobertos de lágrimas e poeira de asteróide, olha fixamente para o Alvo.

No cérebro maior do que uma cidade, e em lentidão geológica, Ela pensa somente no Peso.

É claro que a maior parte do peso se deve a Berilia, Tubul, Grande T’Phon e Jerakeen, os quatro elefantes gigantescos cujos ombros largos e bronzeados pelos astros sustentam o imenso mundo do disco, o Discworld, rodeado pela longa queda-d’água em sua vasta circunferência e coroado pela abóbada azul-bebê do Paraíso.

A astropsicologia ainda não conseguiu determinar o que pensam os quatro animais.

A Grande Tartaruga era uma mera hipótese até o dia em que o pequeno e obscuro reino de Krull, cujas montanhas se projetam sobre a beira, construiu uma enorme grua com roldanas na ponta do penhasco mais íngreme e por esse mecanismo vários observadores desceram pela Borda, numa nave de bronze com janelas de quartzo, para que enxergassem através da cortina de névoa.

Os antigos astrozoólogos, puxados de volta por enormes grupos de escravos, conseguiram retornar com muitas informações acerca da forma e da natureza de A’Tuin e dos elefantes, mas isso não resolveu questões fundamentais da essência e do propósito do universo.

Por exemplo, qual era afinal o sexo de A’Tuin? Essa pergunta vital, diziam os astrozoólogos cada vez mais respeitados, só seria respondida quando uma grua maior e mais potente fosse construída para uma nave espacial. Enquanto isso não acontece, podiam apenas especular sobre o cosmo.

Havia, por exemplo, a teoria de que A’Tuin viera de lugar nenhum e continuaria a se arrastar de maneira regular, em marcha constante rumo a lugar nenhum, para todo o sempre. A teoria era muito bem-aceita entre os acadêmicos.

Uma alternativa, preferida pelos religiosos, era a de que A’Tuin rastejava do Lugar de Origem à Época de Acasalamento – bem como todas as estrelas no céu, obviamente também carregadas por tartarugas gigantescas. Quando chegasse o momento, se acasalariam com enorme paixão e por pouco tempo, pela primeira e última vez. Dessa ardente união nasceriam novas tartarugas, que originariam novos modelos de mundo. Essa hipótese era conhecida como Big-Bang.

Visão Além do Alcance

Vez ou outra visito uma exposição de artistas locais aqui em Vitória, ES, e cada vez mais me espanto com sua feiúra ou falta de propósito. No século XX a idéia de simetria, a natureza como índice, e todas as suas regras foi se perdendo em uma barafunda de movimentos contestatórios, avant-garde, etc. que primeiramente colocaram em foco a figura do sujeito e, depois, constituiu a arte como um campo demasiado autônomo, cada vez mais fazendo sentido apenas quando compreendido e julgado dentro de sua história particular. Usando a literatura como exemplo: Ulysses, de James Joyce, surge propondo uma série de técnicas narrativas interessantes, explorando e aprofundando a idéia o fluxo de consciência, possui parágrafos memoráveis, mas sua liberdade no uso da linguagem acaba aparecendo para alguns como uma carta branca que passa a permitir os mais desvairados experimentalismos, inclusive a sua final e incompreensível obra: Finnegans Wake. Começam a surgir obras que não fascinam mais de imediato, mas precisam de longas séries de justificações e interpretações dignas da decifração de um hieróglifo para que possam ser compreendidas e apreciadas. O que me espanta é que muitas vezes a “idéia que se quer passar” é um raciocínio altamente banal ou corriqueiro, e o meio utilizado é, além de tudo, feio. Dou exemplos: fui a uma exposição na qual dois altos tubos de vidro estavam preenchidos, um deles com isopor e o outro com palha de aço; em cima de cada um pingava constantemente uma gota d’água: em uma entrevista o autor dizia que ele queria expressar a passagem do tempo, ora, se ele se dignasse a ler algumas páginas da Montanha Mágica, veria que a sua idéia de tempo é algo, para dizer o mínimo, limitada e pueril. Mas prossigo nos exemplos: em uma exposição havia um bambolê pregado na parede fazendo às vezes de piercing, em outra, fotos queimadas, em outra o sujeito não achou nada melhor para fazer com livros do que pintar suas páginas com tinta vermelha, estragando-os (e teve a ousadia de justificar seu ato dizendo que se sentíamos gastura ao ver aquilo é porque isso é um sinal de que ainda nos importamos com os livros, ele estava a fazer uma denúncia…) o outro, para falar da violência, pendurou um monte de alvos baleados (sim aqueles papéis com homens pretos desenhados), expôs as balas amassadas que os atingiram junto com algumas estatísticas, só. Enfim, acabou-se desenvolvendo um hábito de procurar poeira do oceano, ou seja, tenta-se dar explicações rebuscadas para tudo (inventando-se algumas que francamente, na minha opinião, são alucinadas) e logo se acaba povoando a arte de fantasmas que apenas os eruditos que lêem tais artigos e estudaram tal autor enxergam, enquanto o povo (e eu me incluo nele) fico impressionado com o desperdício de tempo, espaço, dinheiro e criatividade enquanto olha sem entender nada, procurando as roupas do rei.

Enfim, tirem as suas próprias conclusões, seguem trechos de análises que podem ser encontradas no site Portal Artes (contribuição de Mariana Pandolfi Barbarioli):

Jasper Johns

Dancers on plane; Merce Cunningham é a homenagem do americano Jasper Johns (1930 – ) ao trabalho de Merce Cunningham, o coreógrafo de vanguarda. Dancers on a plane (Bailarinos num plano) é uma pintura extremamente bela e, em termos conceituais, extremamente complexa. O talento supremo de Johns está em criar visualmente um conceito bastante difícil: o artista encanta o olhar de tal modo que nos leva a explorar esse conceito. Dancers on a plane exibe as complexidades da satisfação religiosa (o modo pelo qual o lado terreno da vida, o esquerdo, será divinamente transformado após a morte, o lado direito) e dos relacionamentos sexuais; mostra também o caráter quadridimensional do movimento de dança exibido num “plano único”, a tela em que os passos combinam-se como parceiros.

Jasper Johns - Dancers on a Plane.

Jasper Johns - Dancers on a Plane.

Robert Rauschenberg

A influência do dadá e do surrealismo conduziu o americano Rauschenberg (1925 – ) a uma forma de arte inteiramente nova, na qual ele usa objetos prosaicos em justaposições incomuns. Essas pinturas, chamadas combines (“Combinações”), são a especialidade de Rauschenberg. Canyon é um exemplo. O artista fez uma desconcertante mistura de imagens e técnicas: pintura a óleo combinada a fotos serigrafadas, a textos de jornal e a simples garatujas pitorescas. Mas, abaixo dessa algazarra vital e intensa, uma ave morta paira com as lúgubres asas abertas. Há uma vertiginosa sensação de planar nos ares, de levantar vôo para o canyon do desconhecido. Percebemos que o desfiladeiro localiza-se menos na pintura que abaixo dela: em vez de estar lá dentro, enquadrado onde não representa perigo, encontra-se em nosso próprio espaço pessoal. A saliência onde a ave se empoleira projeta-se em diagonal para o mundo do observador; dessa saliência, pende molemente uma almofada, disposta em duas bolsas que parecem estranhamente eróticas e patéticas. Todos os elementos da obra, bidimensionais ou tridimensionais, combinam-se numa impressão de clausura, como se de fato estivéssemos acuados entre as altas paredes nuas de um canyon rochoso.

Canyon - Robert Rauschenberg

Canyon - Robert Rauschenberg

Desde sempre eu tive o hábito de jogar vídeo-game e assistir a desenhos animados, sejam da Disney, animes japoneses, enfim, tudo o que passasse na TV ou eu conseguisse alugar ou pegar emprestado eu assistia. Chego aos meus 23 anos e o hábito permanece: não perco uma pré-estréia de algum filme da Pixar, acompanho o lançamento de curtas de diversos estúdios e diretores, enfim, continuo fascinado por esse universo da produção artística. Mas até agora eu meramente repeti o que já havia escrito em algum post antigo, o que quero dizer é o seguinte: fico impressionado com o fato de que, apesar de uma produção tão rica e diversificada, o ramo da animação seja tão pouco conhecido e divulgado, os nomes são sempre os mesmos: Disney, Pixar, Dreamworks, às vezes alguém se lembra da Blue Sky Studios (Era do Gelo…), e talvez forçando a memória apareça desvanecente o nome Studio Ghibli (A Viagem de Chihiro). O fato é que muitos estúdios pequenos, sem dinheiro para investir em um longa de animação, e ainda aqueles especializados em desenvolver CGs (gráficos de computador) para vídeo-games, produzem animações da mais alta qualidade e beleza. De modo que resolvi criar uma série de posts chamados Animation Now! (em referência a um livro homônimo publicado pela Taschen que compila e descreve vários estúdios atuantes no ramo da animação atualmente) para indicar alguns vídeos interessantes desse ramo artístico.

O post de hoje é sobre o Blur Studio, uma empresa de animação fundada em 95 e que tem sua sede em Venice, Califórnia. Seu campo de atuação é bem amplo, produzindo desde curtas em computação gráfica a CGI para jogos de vídeo-game (Halo Wars, Fable 2, Terminator Salvation) até comerciais e outras coisas. Seu último curta de animação chama-se A Gentleman’s Duel (Um Duelo de Cavalheiros) e é o que eu indico para ser apreciado e coloco em primeiro lugar para a sua apreciação, mas todos os curtas que seguem abaixo valem a pena a conferida (inclusive o curta chamado Gopher Broke foi incicado ao Oscar em 2004) e, apesar de não possuírem todo o apuro técnico de uma Pixar ou sua estonteante originalidade também não fazem feio e demonstram uma elevada competência.

Obs: Infelizmente todos os curtas estão em inglês e sem legendas.

2007: A Gentleman’s Duel (Um Duelo de Cavalheiros):

O título é auto-explicativo, um duelo ocorre entre dois cavalheiros pela mão de uma bela e formosa dama, mas não é um duelo qualquer com simples pistolas e floretes… (obs: continue assistindo ainda quando aparecerem os créditos, o final aparece depois deles)

2005: In The Rought (Na Dureza):

Por conta de brigas conjugais um homem das cavernas é expulso de casa por sua mulher, mas o que ela não esperava é que uma terrível besta-fera estava à espreita:

2004: Gopher Broke:

O curta mostra as desventuras de uma marmota (?) enquanto tenta conseguir comida fazendo armadilhas em uma estrada:

2003: Rockfish (Peixe-Pedra):

Essa animação conta a história de um peculiar pescador futurista que tenta capturar um “peixe” muito, muito grande:

2002: Aunt Luisa (Tia Luisa):

É o primeiro curta de animação da empresa, o desenho mostra uma velha senhora que subitamente começa a escutar uma banda tocando dentro da sua casa, sempre no cômodo ao lado do que ela está:

Não consegui colocar o vídeo diretamente aqui, então clique no título, acima, para assitir ao vídeo.

Última observação: no site da empresa é possível assistir a outros vídeos, inclusive às excelentes CGs dos jogos que ela está produzindo (todas as fotos que eu postei aqui são frames dessas CGs).

Kandinsky

Engraçado que eu tenho postergado o estudo sério desde que entrei na faculdade, achando que sempre vai dar tempo depois. Aqui em casa ninguém me põe pressão, e eu não sei quando ela vai surgir. E como estudar não é sinônimo de felicidade, e nós só fazemos esse trabalho infeliz quando sentimos que é necessário para não ter um sofrimento maior, passei três anos e meio fazendo outras coisas que não estudar. Mas a minha vida está tão tranquila que eu estou até com medo de um dia a pressão chegar e eu não perceber. E aí ou ser tarde demais ou eu perceber que teria sido melhor gastar o tempo de outra forma. Estudar é algo necessário, eu enxergo: é um dever, eu diria. É um dever porque o dia vai chegar em que o estudo vai ser necessário e como eu não posso planejar com antecedência quando vai chegar esse dia, é melhor que eu cumpra esse dever agora. Mas numa situação como a sua, você deve, frente a uma doutrina e a Os Irmãos Karamázov, escolher qual dos dois, se um te dá prazer e o outro segurança para um futuro que você não sabe quando vai chegar? Essa é a resposta que me falta. Talvez dividir as coisas: metade de todo o tempo livre para o estudo e a outra metade para o prazer e aprimoramento pessoal (levando em conta que estudo é igual a condições de se alimentar e sustentar os seus no futuro). Ou talvez, tendo em vista que as necessidades materiais do homem são as necessidades primárias: três quartos do tempo livre estudando e um quarto dele em aprimoramento e prazer. Mas não é uma vida infausta essa? Passar três quartos da vida fazendo algo que você não gosta, apenas para se sustentar? Mas não é ainda mais infausto padecer de necessidades? Por que será que adultos não costumam pensar muito nisso (eu acho)? Talvez porque saibam que trabalhar é uma obrigação para a qual não há alternativa. Enfim, eu só estou dividido entre a proporção… Se deve ser meio a meio ou três quartos para um quarto. Acho que meio a meio é a proporção ideal, mas pra mim, que já perdi muito tempo, vai ser três quartos para um quarto e olhe lá se eu não colocar mais rigor aí…

Pensar vs Agir

Sempre ouvi dizer que o pensamento complementa o agir humano, potencializando-o e fazendo de nós o que somos hoje. Mas me parece que pensar e agir são antes uma dicotomia, do que complementos. Pensando, dizem, o homem antecederia a ação e a planejaria, aperfeiçoando-a. Só que pensar demais nas coisas pode inibir a ação, além de existirem variáveis que muitas vezes não podem ser antecipadas pela mente. Pensar pode fazer bem… ou não. Tomar decisões, por exemplo, um exercício típico do pensamento, parece-me o que de mais difícil um homem pode fazer. Estou aqui às voltas com algumas decisões, como sempre. Mas desta vez não pensarei – seguirei uma via que comporta bem menos problemas: a intuição.

Brueghel - Adoration of the Magi

Brueghel - Adoration of the Magi

A inexistência de uma autoridade centralizada, legítima e soberana de onde emanassem toda a legislação não era a única consequência da morte dos Estados no período medievo. Daí também advém a carência de um judiciário institucionalizado que arvorasse em si a competência para solução de todos os conflitos entre os homens. Ora, como já foi dito, a figura do juiz se confundia com a do chefe. E representava, ainda, apenas mais um dos métodos de composição das diversas desavenças de um período bastante truculento da história. “A Idade Média, quase de uma ponta à outra, e especialmente a era feudal, viveram sob o signo da vingança privada” (BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. 2ª Edição. Edições 70. Pág. 141). Diante de uma agressão ou ofensa, mais de um caminho se abria. A retaliação, contudo, era vista como o mais sagrado deles. Tanto que as constantes vendettas por hábito se transformavam em morticínios intermináveis, onde o parente morto de determinada casa era vingado, apenas para que o vingador se tornasse vítima, e assim sucessivamente. Os parcos poderes públicos quando não eram indiferentes a esse estado de coisas, no máximo punham-se a fazer algumas ressalvas impeditivas da vingança, sem jamais obstaculizá-las.

O espírito de fraternidade familiar era bastante prestigiado, como se percebe. Os parentes não serviam apenas para vingar: o valor de um senhor, em guerra, era medido a partir de duas variáveis muito bem quantificadas – o seu número de vassalos e o número de familiares que conseguia arrastar para a refrega. Os “amigos carnais”, como eram chamados, eram também úteis para jurar em juízo e para servir nos variados casos de necessidade econômica. Os vínculos de sangue criavam laços que se sustentavam com muita força. Talvez seja difícil compreender a magnitude dessa força para um homem com as lentes do século XXI, acostumado que está à idéia de vender a própria mãe pela menor vantagem que conseguir. Toda uma linhagem reunida em torno de um chefe de guerra representava, por certo, um armamento terrível.

A ausência de uma instituição judiciária não era a única dificuldade na afirmação do direito. O homem medievo, vale lembrar, era alheio ao passar do tempo. Numerosos documentos da época foram escritos sem que sequer houvesse a preocupação de neles colocar uma data. Quando se chegava a procurar um juiz, por vezes discussões intermináveis ocorriam para determinar medidas de tempo. Um participante de um duelo, marcado para tantas horas, havia ou não se atrasado? Determinado direito de punição havia ou não prescrevido (noção já corrente na época)? Aplicação incerta, descentralização, multiplicidade das fontes, falta de imposição por parte de um organismo público soberano e limitações materiais diversas caracterizavam a aventura do direito medieval.

Brueghel - Children's Games

Brueghel - Children's Games

O historiador Philippe Wolff, escrevendo sobre o renascimento dos Estados no fim da Idade Média, buscou definir o que seriam essas entidades políticas da seguinte maneira: “é uma entidade definida por seu território, que é demarcado por fronteiras conhecidas com precisão; por sua população, que reconhece pertencer-lhe; por seu governo, que dispõe do monopólio da autoridade suprema (nos limites do simples direito internacional) e a exerce para assegurar a ordem pública e promover o bem geral. Esse governo é reconhecido pelo conjunto das nações. Seus súditos consideram-no como a ‘coisa pública’ (res publica), instituída para obenefício de todos, qualificada, portanto, para cobrar impostos, administrar justiça, criar um exército, emitir moeda, etc…” (WOLFF, Philippe. Outono da Idade Média ou Primavera dos Tempos Modernos? São Paulo: Martins Fontes, 1988). À parte as possíveis considerações acerca da finalidade com que um Estado exerce a autoridade suprema, fato é que a detém, ou parece deter.

Considere-se ou não apropriado falar da existência de um “Estado antigo”, desaparecido com o fim de Roma na Europa medieval e renascido em meados do século XIV, o fim dos Estados em meio multipolarizado poder temporal medieval parece certo. E se um dos sintomas de sua afirmação na modernidade foi justamente o monopólio da produção legislativa e de sua aplicação, na Idade Média as fontes do direito e os tribunais iriam multiplicar-se incrivelmente. Um juiz na Europa pré-feudal poderia ter de consultar compilações romanas, costumes de povos germânicos ou éditos legislativos dos chefes de reinos bárbaros para julgar os litígios que lhe fossem levados. Contudo, a figura do juiz medieval confundia-se, de ponta a ponta da Europa, com a dos chefes temporais, uma classe que, no mais das vezes, à exceção talvez da Itália, compunha-se de iletrados. Embora as fontes de direito fossem plúrimas, eram inacessíveis, o que ocasionou o quase abandono de todas em favor da única acessível: o costume, ou o que se costumava entender por isso.

O valor da tradição na Idade Média era assombroso. Na mentalidade de então, aquilo que foi possui o inalienável direito de continuar sendo. Boa parte das disputas judiciais por terras – o bem mais valioso da época se levarmos em consideração que podia assegurar todas os outros elementos necessários para a vida – não tocavam no assunto “propriedade”, à exceção mais uma vez da Itália. A propriedade era um assunto dos romanos. O litigante, ao contrário, habitualmente alegava ter direito à saisine, ou “posse de bens de raiz”: uma espécie de posse valorizada pela tradição. O que se procurava demonstrar perante o juiz era que os seus ascendentes haviam trabalhado a terra por mais tempo que os ascendentes do outro. O que era, repita-se, tinha o direito de continuar sendo.

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