
Fernando Pessoa
Esses dias, por um feliz acaso, descobri que o meu poeta preferido, Fernando Pessoa, havia criado um detetive, o Dr. Quaresma, e intentou escrever contos de cunho policial, tipo de narrativa que ele designava com o nome de “policiárias”. O seu investigador é moldado bem ao estilo do qual eu gosto, pois, ele não elucida crimes com base em passagens secretas ou chaves que não estavam lá até serem reveladas ao leitor no final da história, como um deus ex machina, mas apela para induções de caráter psicológico, e raciocínios que costumam relacionar fatos dos quais já estamos de sua posse. Infelizmente, os contos não foram terminados e muitas vezes o que sobrou é nada mais do que uma barafunda de fragmentos desconexos. Dos casos que encontrei, este que vos apresento é razoavelmente bem contado em cinco fragmentos e de longe é o mais completo, falta-lhe uma introdução, que eu adaptei do livro “Os Cem Melhores Contos de Crime e Mistério”. Ao final resolvi colocar um fragmento no qual o Fernando Pessoa discurso sobre a personalidade do criminoso, é, para dizer o mínimo, muito interessante.
O Caso da Quinta das Vinhas
A ação se passa em uma noite de setembro de 1905, na Quinta das Vinhas, com a presença do proprietário, José Mendes Borba, e do seu filho, José Alves Borba, bem como da sua irmã Adelaide, de um primo, Manuel Barata, aspirante a oficial, e de uma amiga de Maria Adelaide, Maria Elisa. Também está com eles o engenheiro Augusto Claro (que é ele quem narra o caso), a convite de José Mendes Borba, o dono da Quinta.
Lá pela meia-noite, após uma explosão, foi encontrado arrombado o cofre da casa, de onde haviam desaparecido cem títulos da Dívida Externa Portuguesa que, aliás, dois dias depois já haviam sido postos em circulação.
Depois das investigações que estiveram a cargo do agente Lima, este desconfiou do filho do dono da casa, pois este estava com dificuldades financeiras além de possuir maus precedentes, além do fato de ser amigo de Manuel, passador de moeda falsa. Sabia-se que, à hora do crime, todas as pessoas citadas estavam na casa, já recolhidas aos seus quartos, com a exceção do proprietário e do engenheiro Augusto Claro. O agente Lima estranhava que o engenheiro tivesse justamente subido ao primeiro andar (onde se localizava o cofre) pouco antes da explosão. Convencido de que tudo fora obra de uma quadrilha de inteligências, não só pelo filho do dono da casa, mas também por mais alguém, o agente prendeu o jardineiro José Algarvio.
É então que o engenheiro pede ao Dr. Quaresma que procure resolver o enigma, tanto mais que está convicto da inocência do jardineiro. É por aqui que principia, no texto de Pessoa, a narrativa do engenheiro Augusto Claro.
[1]
Apesar de me maçar por antecipação, a ideia de ir contar ao Dr. Quaresma toda a história do roubo, não podia decentemente furtar-me a fazê-lo. Por isso, resignando-me com placidez, lhe expus, resumindo o mais possível, todos os factos que vão expostos no decurso desta narrativa. Fiz, como é de supor, algumas supressões: não falei nas dívidas do José Alves, nem no caso dos quinhentos escudos, e muito menos da parte do discurso do Lima de que estas coisas tinham sido o assunto e a base. Não pude, porém, esquivar-me a falar da hipótese policial, de que havia uma quadrilha a trabalhar, e que a polícia suspeitava que o fizessem em ligação com alguém de dentro da Quinta das Vinhas. Se não explicasse isto, era incompreensível a prisão de José Algarvio; e, aliás, bastava que o Dr. Quaresma se interessasse activamente por ele para o descobrir na polícia.
O Dr. Quaresma ouviu-me com grande atenção mas, se assim posso dizer, com uma atenção dividida. Parecia, ao mesmo tempo que me ouvia com os olhos, estar escutando uma voz que não era a minha. Reconheço o absurdo deste modo de dizer, mas transcrevo a minha impressão sensorial. Na realidade, o Dr. Quaresma parecia, sem deixar de me ouvir atentamente, estar todavia a seguir o decurso interior de uma outra coisa — raciocíno ou conjectura ligada — que não deixava de ter relação com o que eu ia narrando.
Acabei, por fim, a minha narrativa, e supunha-me livre do fardo dela. Mas o Dr. Quaresma, que não me interrompera enquanto eu contava, começou nesta altura a interrogar-me. Pediu-me uma descrição minuciosa das pessoas que estavam na casa por ocasião do roubo; a minha descrição directa havia sido sumária. Interrogou-me sobre idades, profissões, estados financeiros, e tudo mais. Comecei a sentir-me menos à vontade, sobretudo quando o José Alves era o assunto do interrogatório. Eu não podia dizer toda a verdade sobre o José Alves, mas também, em simples justiça ao preso, não podia suprimir redondamente os factos. Além disso, não estava muito seguro que o Dr. Quaresma, falando depois à polícia, não iria descobrir os fundamentos da outra hipótese do agente Lima. Decidi narrar o caso de certas atrapalhações financeiras do José Alves, não explicando o jogo que ele motivara, nem fazendo referência ao furto anterior.
A certa altura, porém, comecei a atrapalhar-me, pois o médico entrou no assunto por desvios. Perguntou-me se as relações entre pai e filho tinham sido sempre boas, ao que eu respondi que me parecia que sim, mas o próprio verbo «parecer» me soou cauteloso de mais, e receei que levasse ao Dr. Quaresma mais informação do que eu queria dar. Com essas e outras perguntas me entreteve, sem me divertir, durante cerca de uma hora e meia, a contar do início da minha conversa.
[2]
— Só o posso fazer pondo a mão no verdadeiro criminoso.
— Então faça-o, Sr. Dr. Quaresma.
Quaresma desdobrou as mãos, estendeu a dextra e tocou-me no ombro. Por fim, levantou-se da cadeira, e dirigiu-se para um cabide onde tinha o chapéu.
— Não se importa que saíssemos? — perguntou. — Queria passear um pouco para acabar uns certos raciocínios.
— Não me importo nada. — E saímos.
Descemos a Rua dos Fanqueiros. Estava uma tarde linda de Outono. Seguimos lado a lado, silenciosos ambos, e, no fim da rua, seguindo o movimento do Dr. Quaresma, virámos à direita, para o Terreiro do Paço. O Dr. Quaresma avançou lentamente, cabisbaixo, as mãos sempre cruzadas atrás das costas, até à muralha da esquerda. Ali parou, e eu com ele, e contemplou vagamente o rio. Esteve assim um momento. Depois voltou-se para mim com uma expressão grave e directa nos olhos naturalmente um pouco febris.
— Eu salvo o José Algarvio — disse. — Mas, antes de o fazer, preciso estudar com muito cuidado como hei-de proceder no assunto. Calhou muito bem que fosse o Sr. Claro que me procurasse, porque é consigo que eu tenho estudar a sério a resolução do assunto. Diga-me uma coisa: ocorreu-lhe alguma vez que o José Alves pudesse ser suspeito?
— Se me ocorreu? Não. Como sabe o Sr. Dr. Quaresma que ele é, ou pode ser suspeito?
— Concluí das palavras que o Sr. Claro me não disse. — Fez uma pausa. — Teria pena que o senhor tivesse pensado que o José Alves pudesse ser suspeito. Ele é o seu amigo, não é verdade?
[3]
— Se eu salvar este José Algarvio, o José Alves será fatalmente preso.
— Talvez não — disse eu.
— É-o com certeza. Será preso e será condenado. Este José Algarvio salva-se com facilidade, nem era preciso o meu auxílio para nada. O José Alves é que se não salva. É pena. Quer dizer, não se salva, se o caso seguir o seu curso entregue só à polícia. Há só um processo de o salvar: é pôr a mão no criminoso. Ora a polícia não é capaz de o fazer, porque caiu, desde o princípio, num erro fundamental, naquele mesmo erro em que o criminoso quis que ele caísse.
— E o Sr. Dr. Quaresma sabe quem é criminoso?
— Sei. Quer que eu salve o José Alves?
— Quero — disse eu hesitantemente, sem perceber o que se seguiria.
[4]
O critério de investigação que adopto, porque o acho o mais racional de todos, é o dividir a investigação preliminar em três tempos. O primeiro tempo é determinar quais são os factos incontestáveis, absolutamente incontestáveis, eliminando todos os elementos que não o sejam, ou porque não há certeza directa deles, ou porque sejam conclusões — talvez lógicas, talvez inevitáveis — tiradas desses factos, mas, em todo o caso conclusões e não factos. Citarei um exemplo para esclarecer inteiramente o que desejo significar com estas observações. Suponha que está um dia de chuva e que estou em casa. Aparece-me um indivíduo com o fato a escorrer em água. É natural que eu pense: «Este homem andou à chuva e assim ficou molhado.» Mas pode bem ser que não andasse à chuva, que entornassem água sobre ele aqui dentro de casa. A maioria da gente consideraria um facto o ter andado esse homem à chuva. Afinal é uma conclusão — uma conclusão naturalíssima, mas uma conclusão, ou uma dedução. Se eu tivesse estado à janela, tivesse visto esse indivíduo vir pela rua fora sob uma chuva pesada, poderia ainda, é certo, esse molhar da chuva ser suplementado por outra circunstância qualquer, mas alguma coisa da chuva teria molhado o homem, e eu poderia, em todo o caso, afirmar que o homem tinha andado à chuva. E então isso seria um facto.
Ora, neste caso do roubo na Quinta das Vinhas, há alguns factos que parecem incontestáveis (digo «parecem», pois eles se baseiam em testemunhos que podem ser falsos, involuntária ou propositadamente). Esses factos são: que cerca da meia-noite do dia … de Setembro se deu uma explosão de dinamite na fechadura do cofre no escritório da Quinta das Vinhas; que esse escritório e a saleta anexa estavam fechados por dentro, aberta a janela da saleta, e dois cães mortos por envenenamento; que se verificou nessa altura não estarem no cofre dinamitado uns títulos (cem) da Dívida Externa Portuguesa, 1.ª série, que haviam estado nesse cofre; que se não encontrou sinal de ninguém suspeito na busca que se passou imediatamente nas proximidades da casa; que todos os títulos roubados, verificados os seus números por uma lista que existia em poder do proprietário dos títulos, foram passados para a circulação bancária da praça sem que qualquer deles fosse apanhado no processo de passagem. Factos, simplesmente factos, há só estes. Quanto mais se queira passar por facto é simplesmente dedução.
Estabelecidos os factos incontestáveis, chegamos ao segundo tempo da investigação. Este tempo consiste no seguinte: em descobrir qual é a hipótese que mais completamente liga e explica os factos incontestáveis. Mas, descoberta esta hipótese, há que investigar que outras hipóteses haverá que também, embora com menos probabilidade aparente, se ajustem ao conjunto dos mesmos factos. E essas hipóteses determinam-se por um processo simples: descoberta a hipótese mais provável, estabelece-se logo a hipótese contrária e verifica-se qual o grau de probabilidade que a essa hipótese contrária compete. Estabelecido isto, será possível partir para as outras hipóteses, isto é, aquelas que estejam intermédias entre a mais provável e a sua contrária, e ir verificando, a uma e uma, quais as probabilidades delas.
No caso de que se estamos tratando, a hipótese aparentemente mais provável é a que toda a gente aceitou desde logo, instintivamente, achando-a tão provável que a tomou, até, por facto e não por hipótese ou conclusão Essa hipótese é de que o roubo houvesse sido praticado por um indivíduo ou indivíduos, estranhos à Quinta das Vinhas, que houvessem envenenado os cães, entrando em casa escondidos, posto a dinamite, roubado os títulos e fugindo depois, suficientemente depressa para não serem vistos. Conhecida esta hipótese, estabeleceremos a hipótese contrária. A hipótese contrária é que o roubo não tenha sido praticado por indivíduos estranhos, que não tenha havido nenhuma das circunstâncias aparentes já indicadas. É isso que constitui, como é de ver, a hipótese contrária.
Ora que probabilidade se pode ligar a esta hipótese contrária? Como a hipótese mais provável, a mais imediata para todos, é que o roubo fosse feito por estranhos, e nas circunstâncias indicadas, a hipótese contrária será realmente provável apenas num caso: se houve a intenção de simular esse roubo por estranhos. Nesse caso, a hipótese contrária é provável; tão provável como a primitiva é natural.
Estamos, pois, perante duas hipóteses prováveis, e que entre si se opõem. Qual das duas é a mais provável? Temos que considerar isto à luz do exame das circunstâncias directas do roubo ou seja, considerando (1.°) o local do roubo, (2.°) a hora em que o roubo foi praticado, (3.°) a natureza do objecto roubado. São estes os três elementos materiais directos do sucesso.
O local do roubo pode ser considerado sob dois aspectos — o local em si mesmo, e a escolha deste local para roubo; ou seja, o ser o roubo praticado no escritório da Quinta das Vinhas, e o ser a Quinta das Vinhas o local escolhido para o roubo. Quanto a dar-se o roubo no escritório da Quinta, nada há de extraordinário pois ali é que está o cofre, e o roubo havia forçosamente de ser ali. Mas quanto a escolher a Quinta das Vinhas para casa a roubar, o caso é diferente. Que presunção havia de que o cofre da Quinta das Vinhas era mais proveitoso de roubar que qualquer outro cofre? Que presunção dessa ordem havia para estranhos? Quem tivesse a habilidade e os processos para roubar como se roubou neste caso, por que escolheria a Quinta das Vinhas quando, sem desperdício de habilidade, nem maior risco, obteria melhores vantagens atacando outro ponto? A probabilidade neste caso é, pois, em favor de uma pessoa não estranha à casa capaz de roubar esse cofre por não ter outro à mão — razão suficiente e clara — e sentindo-se na necessidade de simular o roubo dum estranho para desviar a atenção de alguém de dentro da casa, entre os quais ele estaria incluído.
Agora quanto à hora do roubo. Quanto à hora do roubo, é mais estranha se ele foi obra de estranhos do que se foi obra de alguém de dentro de casa. Entrado em casa, o gatuno estranho deixa passar o tempo necessário para ter a certeza, ou a probabilidade grande de estarem todos a dormir. Para quê operar logo, ainda que não se soubesse que tinha ficado alguém cá em baixo? Para estranhos é a hora mais espantosa que se pode imaginar. Mas para alguém de dentro da casa, que quisesse simular um roubo por estranhos, a hora é exactamente a que seria escolhida. Estava quase toda a gente deitada, mas ainda estava alguém a pé. Não havia tanta gente a pé que se corresse o risco de cruzar com alguém ao dispor as coisas para a simulação; mas havia até o número bastante de pessoas para marcar a hora — neste caso a pretensa hora — do roubo e para dar sinal de que o roubo estava cometido.
A natureza do objecto roubado… Se o roubo foi praticado por estranhos, ou iam roubar os títulos ou não iam roubar senão o que encontrassem. Contra a hipótese de que iam ao acaso, milita a própria natureza do roubo, e a maneira como depois foi passada a matéria roubada parece indicar preparação para dispor dela.
***
Em toda a investigação de um facto, cuja natureza se desconhece e se quer saber ou cujo autor se ignora e se quer descobrir, o que importa, acima e antes de tudo, é isolar nele qualquer elemento que, sendo absolutamente indubitável, seja, ao mesmo tempo, inesperado ou estranho. Este roubo contém dois elementos que são inesperados ou estranhos — as circunstâncias do roubo, e o facto de que se conseguiu passar os títulos sem encontrar obstáculos. Por um destes dois factos, portanto, convém que principiemos a investigação.
Mas, isolados que sejam os factos de que se não possa duvidar que se deram, e que são estranhos (presumindo, é claro, que haja mais do que um), escolheremos, para verdadeiro princípio da investigação, aquele desses factos que seja susceptível de menos interpretações, isto é, aquele que pareça mais misterioso. Ora a passagem dos títulos é susceptível de várias interpretações; pode haver um conluio com qualquer indivíduo num banco ou na bolsa; pode haver um erro qualquer na lista dos títulos; pode ter havido uma troca de títulos sem que se verificasse a troca, nem portanto se conferissem os números. Mas sobre as circunstâncias do próprio roubo não há várias hipóteses plausíveis. Há simples estranheza.
Sim. O roubo foi praticado, ao que se viu, por um processo ruidoso, e a hora não tão cedo que fosse dia, mas não tão tarde que houvesse a certeza de estarem todos deitados em casa, como efectivamente não estavam. Podendo o cofre ser aberto por vários processos que não envolviam ruído, foi escolhido um processo que precisamente o causava, e, ainda, um processo invulgar. Resultado: foi escolhido um processo invulgar porque era desnecessário e produzia alarme — exactamente as razões contrárias àquelas que levariam a escolher um processo invulgar. Que a intenção era roubar os títulos é evidente, primeiro porque o modo misterioso como se passaram os títulos deve, qualquer que fosse, ter sido objecto de preparação; segundo, porque, sendo o roubo praticado com gente dentro de casa, não haveria tempo para roubar mais que os títulos.
Ora estas circunstâncias levam-nos a uma conclusão: que o processo empregado para o roubo foi empregado precisamente para dar alarme. Ora não se dá alarme senão para um fim: para enganar sobre a hora do roubo. E, se considerarmos que o processo de roubo — uma deflagração por rastilho — é coisa que pode ser disposta por uma pessoa para produzir resultado quando essa pessoa não esteja presente, chegamos a outra e ulterior conclusão: que o roubo não foi praticado pela deflagração de dinamite. Se o não foi, é porque foi por chave falsa e se foi por chave falsa, quem roubou era uma pessoa da casa, que, pela deflagração, quis dar a ideia de que quem roubara era pessoa de fora. Mas, se essa pessoa queria dar a ideia de que o que roubava não era ele, haveria de completar o seu cenário com o cuidado de estar onde o vissem na ocasião da deflagração e assim assegurar a si mesmo um álibi suficiente. Na altura da deflagração estavam todos deitados menos duas pessoas — o pai Borba e V. Ex.ª. E, como era ele o proprietário dos títulos, a primeira suspeita é sobre V. Ex.ª que recai.
Para que a suspeita se confirme, ou se confirme mais, é preciso ver, primeiro, se, um pouco antes de se dar a deflagração, V. Ex.ª saiu de casa de jantar sob um pretexto qualquer e se demorou bastante para dispor o cenário. Ora V. Ex.ª saiu sob um pretexto directo — o ter deixado uma cigarreira no quarto do aspirante —, e demorou-se o bastante para dispor o cenário completo, aliás obra de minutos sobretudo para quem, tendo tudo estudado, procede rapidamente.
[5]
O Dr. Quaresma desligou as mãos detrás das costas, olhou sem expressão e rapidamente para mim, e, estendendo a mão direita de repente, tocou-me no ombro. Depois tomou à posição em que estava, as mãos outra vez atrás das costas, atadas, e os olhos perdidos sobre o Tejo. .
Como uma bola de sabão, estoirou-me a alma, sem ruído, dentro de mim. Fiquei suspenso de um vácuo interior, sem razão, sem fala, sem gesto. Se o Dr. Quaresma tivesse dito qualquer coisa, eu teria respondido qualquer coisa, teria tido a que adaptar a minha razão e a minha voz. Ao silêncio não pude responder nada. O seu gesto era guilhotinante. No longo espaço de curtos segundos tentei desesperadamente formar uma atitude, uma palavra, um gesto, qualquer coisa… Não pude… e então compreendi violentamente quanto pode em nós, se sabem excitá-la, a consciência da culpabilidade. Fosse eu inocente, e alguma coisa diria, alguma coisa sucederia. Com cada fracção de segundo do meu silêncio a minha culpabilidade enchia o espaço. Com cada fracção da minha consciência desse silêncio aumentava a minha incapacidade de falar, de agir, de me defender. A minha derrota era completa. No fim do que deviam ser poucos segundos reconheci-o inteiramente.
O Dr. Quaresma desviou o olhar do Tejo, mas não o passou por mim. Voltou-se de costas para o rio, disse-me, com um tom de quem antes nada dissera que pesasse: «E se nós nos fossemos embora?» E, avançando ele para o Arco da Rua Augusta, avancei, silencioso ao lado dele, soterrado em mim sob a acusação definitiva que não fora proferida.
A meio da Praça o Dr. Quaresma voltou para mim a face, mas não os olhos, e disse: «O que pensa fazer?»
Tive uma grande vontade de chorar, de lhe pedir perdão, a ele, a quem nada fizera. Durante um momento não pude falar. Depois encontrei a minha voz dizendo-lhe: «Não sei.» E acrescentei, passado um momento: «O doutor dirá o que quiser.»
O Dr. Quaresma olhou então em cheio para mim, e disse-me com grande simplicidade: «Eu não tenho nada a dizer. Como já compreendeu, decifrei — posso dizer-lhe que decifrei com muita facilidade — o seu caso. O resto é consigo».
O Homem e o Criminoso
O homem, como aliás todos os animais, tem uma vida psíquica ou mental composta de dois elementos opostos — aquele elemento, vulgarmente resumido na expressão «os sentidos», pela qual entra em contacto com o mundo chamado externo, dele toma conhecimento, e com ele se relaciona; e aquele outro elemento que vai desde a consciência de si à inteligência abstracta, pelo qual entra em contacto com o mundo a que podemos chamar interno — o mundo das suas imaginações, das suas ideias, do seu ser, como o pensa e o sente.
Ambos estes elementos são necessários à vida do homem, e ambos eles são necessários em igual porção, isto é, funcionando com igual intensidade, pois, se assim não for, produz-se um desequilíbrio. Para, porém, haver equilíbrio entre duas coisas, é preciso que entre elas haja uma relação. Para que dois corpos se equilibrem nos dois pratos da balança, é preciso que haja a balança. E isto quer dizer que, no fundo, na realidade, a vida psíquica do homem se compõe, não só dos dois elementos que primeiramente se notam, mas de três — esses e um terceiro a que chamaremos o sentido da relação.
Ora qualquer elemento constitutivo da pessoa humana, ou animal até, é susceptível de existir em graus vários, dos quais os graus médios, embora sejam infinitos, constituem a chamada «normalidade», e os graus acima e abaixo desse, a «anormalidade», a doença, a morbidez. Isto é verdade tanto no corpo como no espírito, com a diferença que no corpo, que é um composto complicadíssimo, temos variadíssimos elementos a considerar, ao passo que na mente, ou espírito, basta que consideremos, dada a simplicidade da sua constituição, os três elementos que a compõem e definem — o sentido objectivo, o sentido subjectivo e o sentido relacional.
Como, por natureza, o sentido objectivo e o subjectivo são opostos, segue que uma exaltação mórbida de um se manifesta, inversa e paralelamente, por uma depressão mórbida no outro, ou vice-versa. O fenómeno é um só — opera em sentidos opostos, nos termos opostos da composição psíquica. O sentido relacional, porém, visto que existe, também é susceptível de doença ou anormalidade; como existe para relacionar os outros dois, o resultado da sua doença será uma perturbação das relações entre o sentido objectivo e o subjectivo, sem que necessariamente haja exaltação de um ou de outro, e correspondente depressão ou exaltação em contrário, a não ser que esse desequilíbrio exista independentemente da doença do sentido de relação.
Temos, assim, quatro tipos mórbidos do homem. O primeiro, em que se exalta o sentido objectivo e o subjectivo correspondente se deprime; o segundo, em que se exalta o sentido subjectivo e o objectivo correspondentemente se deprime; o terceiro, em que o sentido de relação se exalta; o quarto em que o sentido de relação se deprime.
O primeiro, que é normal nos animais, em quem o sentido objectivo supera em muito o subjectivo, é, quando se dá no homem, o idiota ou o imbecil. O segundo é o louco, que é essencialmente a criatura cuja vida subjectiva se exalta, a ponto de ele perder a noção objectiva das coisas. O terceiro é o homem de génio, que o génio a meu ver, e por este raciocínio, é a exaltação mórbida do sentido de relação, exaltação mórbida que tem o curioso efeito de produzir um excesso de equilíbrio, uma doença de lucidez só lucidez. O quarto, enfim, é o criminoso. O criminoso, direi então, é um idiota relacional.
O criminoso não é o louco, embora possa ser louco, pois, como disse, pode coexistir uma doença do sentido de relação com uma doença dos sentidos objectivo e subjectivo. O criminoso não é o idiota mental, embora, pelo mesmo motivo que no outro caso, possa ser idiota mental. O criminoso raríssimas vezes, se alguma, poderá ser um homem de génio, no verdadeiro sentido deste termo, pois, como expus, o crime se baseia precisamente no fenómeno mental contrário de aquilo em que se baseia o génio. O que pode haver é momentos, fenómenos ocasionais, de depressão do sentido de relação, como os pode haver no homem normal.
Creio, aliás, que o único caso onde se possa encontrar qualquer coisa parecida com a conjugação do génio autêntico e do crime, é em Benvenuto Cellini.
Ora todos estes fenómenos que descrevi podem ser orgânicos ou episódicos. Certas circunstâncias de educação, de meio, e outras mais ocasionais em muito menor grau, podem, até certo ponto, fazer do homem, que salvo elas seria normal, um imbecil. Certas circunstancias, já mais fáceis de produzir, podem fazer de um homem normal um louco. Outras circunstâncias, como certos estimulantes, certos momentos de exaltação espiritual, e outras assim, podem produzir num cérebro não genial faíscas do que, se fosse constante, seria génio. Tal homem, naturalmente normal, e portanto banal, mas inteligente, terá um momento em que escreve um soneto que fica, único dele, numa antologia. Tal outro — e isto é mais vulgar — terá um dito de espírito que mais vulgarmente atribuiríamos a um espírito realmente genial. O dito de espírito é, até, um dos exemplos curiosos do raro fenómeno do génio ocasional — e é de notar quantas vezes nasce do estímulo da sociedade, do vinho, e de outros assim.
Do mesmo modo, como todos sabemos, há circunstâncias ocasionais que podem fazer do homem, que diríamos normal e que de facto o é, um criminoso. Tal homem, normalmente moral mas fraco, praticará um desfalque sobre a pressão de circunstâncias desvairantes e da oportunidade traiçoeira. Tal outro, não menos normal, matará a mulher num acesso de raiva contra uma traição. Estes casos, não sendo inteiramente raros, são-no todavia mais do que julgamos. Em muitos casos de crime aparentemente ocasional, encontramos, se procurarmos bem, um fundo de anormalidade, talvez vago, talvez escasso, mas que certa circunstância ocasional violenta conseguiu erguer à superfície. O que distingue, contudo, e a todos será evidente, o criminoso-nato (chamemos-lhe assim) do criminoso ocasional, embora neste haja um vago fundo mórbido, é uma de três coisas: a desproporção entre o estímulo e a reacção criminosa; a reincidência constante no crime; e a premeditação.
O crime, porém ocasional ou não, é sempre crime. Como, porém, tanto o crime ocasional (precisamente por ser ocasional, mostra mais claramente e mais destacadamente, visto que se dá sobre um fundo não criminoso ou pouco criminoso, a mecânica do crime) como o homem normal, ou quase normal (em que se dá) nos mais compreensíveis que o anormal, a melhor maneira de estudarmos a mecânica do crime, e, derivadamente, a alma do criminoso, é fazermos uma análise de como surge, numa alma normal ou quase, o impulso realizado ou tentado para o crime.
A desproporção entre o estímulo e a reacção criminosa é característica do criminoso louco, isto é, ou do louco que se torna criminoso, ou do criminoso em que há um elemento concomitante de loucura. A constância na prática do crime é característica do criminoso idiota, ou do idiota malévolo, tipo diferente, ou do criminoso em que há um elemento concomitante de inferioridade mental. É no crime com premeditação que surge o exemplo perfeito, direi, até, o exemplo puro do criminoso. Como neste tipo de criminoso se não alia à sua idiotia relacional nenhum fenómeno rnórbido proveniente dos sentidos antagónicos, e seu desequilíbrio próprio, como deste tipo de criminoso deriva a doença que o faz criminoso, exclusivamente de uma perturbação do sentido de relação, não havemos de estranhar que haja crimes de relação em que há qualquer vaga coisa que parece génio. É que em toda a doença há qualquer coisa de esboçadamente pendular — no génio a frequente insociabilidade, que é a mesma coisa, salvo que em menor grau, que a base do crime; no criminoso premeditado a exaltação e clareza de organização que por vezes o converte num verdadeiro estratégico, se bem que num campo limitado. E, a propósito mas entre parênteses: mais tarde terei que tratar do estratégico mais detalhadamente.